Um casamento feliz nem sempre é sinónimo de paixão intacta. É essa a conclusão, à primeira vista contraditória, de um estudo que foi buscar respostas onde poucas investigações se atrevem a olhar: dentro de uma plataforma criada especificamente para pessoas casadas que procuram uma relação extraconjugal.
Os investigadores não encontraram mulheres a fugir de maus casamentos. Encontraram, na maioria dos casos, o oposto: mulheres que descrevem os maridos em termos positivos, que não têm qualquer intenção de terminar a relação, mas que, ainda assim, sentem falta de algo que o casamento deixou de lhes dar. Sessenta e sete por cento apontaram a mesma razão para procurar uma aventura — não a insatisfação, não a raiva, mas o desejo de voltar a sentir “paixão romântica”.
A amostra é pequena mas reveladora: 100 mulheres heterossexuais casadas, entre os 35 e os 45 anos, todas inscritas na mesma plataforma de encontros extraconjugais. Nenhuma delas, segundo os resultados divulgados pelo site Your Tango, disse estar à procura de um novo marido.
O que a ciência diz sobre a paixão que se apaga com o tempo
Eric Anderson, professor na Universidade de Winchester e coautor do estudo, resume o fenómeno de forma direta: com o tempo, a qualidade e a frequência da intimidade tendem a diminuir, simplesmente porque o casal se habitua ao mesmo corpo e à mesma rotina. Segundo o investigador, essa é “a coisa mais previsível” numa relação longa — o que não significa, sublinha ele, que todos os casais estejam condenados a essa perda de desejo.
O que o estudo torna claro é uma distinção que raramente é feita fora dos manuais de psicologia: amor, vínculo afetivo e desejo sexual não são a mesma coisa, e podem seguir caminhos completamente diferentes dentro da mesma relação. É possível estar satisfeita com o casamento em quase todos os aspetos — e ainda assim sentir que falta a centelha que existia no início.

Ser amada não é o mesmo que se sentir desejada
Esta talvez seja a parte mais incómoda dos resultados: várias das mulheres entrevistadas não descreviam os maridos como maus parceiros. Pelo contrário — muitas afirmavam, sem hesitar, que ainda os amavam. O problema não estava na qualidade do casamento, mas numa ausência mais subtil: a de se sentirem cortejadas e desejadas com regularidade.
Um dos testemunhos citados no estudo resume esse desconforto: quando um homem começa a namorar, esforça-se. Depois de conquistar a parceira, o esforço tende a desaparecer — mas o desejo dela de continuar a ser seduzida não. Esta observação não explica, nem muito menos justifica, todas as infidelidades. Mas aponta para algo que muitas relações longas acabam por negligenciar: a atenção e a sedução não são um capítulo que se fecha depois do “sim”.
Um estudo publicado em 2023, feito com utilizadores da mesma plataforma, reforça esta ideia: a má qualidade da relação principal não é, na maioria dos casos analisados, o principal motor de uma aventura. As motivações são mais complexas, e cruzam fatores pessoais e relacionais que vão muito além da simples insatisfação conjugal.
Querer mais paixão não significa querer sair do casamento
A investigação científica sobre infidelidade é hoje suficientemente vasta para confirmar que não existe uma causa única. Uma revisão publicada na Frontiers in Psychology reforça que a infidelidade pode assumir formas muito diferentes — sexuais, emocionais, relacionais — e ser influenciada por um conjunto alargado de fatores que raramente se resumem a uma única explicação. A rotina, por si só, não conduz automaticamente à traição. Mas o desejo e o amor podem, de facto, obedecer a mecanismos distintos dentro da mesma cabeça e do mesmo coração.
Para o especialista em relações Charles J. Orlando, a diferença está nos verbos: um casamento não pede “trabalho”, propriamente dito — pede “esforço e investimento contínuo, um no outro, e em si mesmo”. É uma distinção que ajuda a explicar por que tantos casais felizes, ao fim de vários anos juntos, sentem a mesma coisa: não deixaram de amar, mas deixaram de investir na sedução do dia a dia.
É talvez por isso que o desejo de mudança nem sempre significa o fim de uma relação. Da mesma forma que a forma como comunicamos dentro de uma relação evoluiu com o tempo, também a forma de manter viva a paixão pode precisar de ser reinventada — sem que isso implique procurar essa reinvenção fora de casa. Antes de se tornar um motivo de crise, a falta de “frisson” pode ser, para muitos casais, um sinal simples de que é hora de voltar a cortejar quem já se tem.





