O que as pessoas verdadeiramente felizes têm em comum, segundo a psicologia — e não é dinheiro nem sucesso

Dinheiro, sucesso profissional, um círculo social alargado — durante anos, estes foram os candidatos habituais a “receita da felicidade”. Mas há cerca de uma década, dois psicólogos começaram a testar uma ideia diferente, e os resultados sugerem que estavam a olhar para o sítio errado.

Harry Reis partilhou uma intuição com a colega Sonja Lyubomirsky: as pessoas verdadeiramente felizes não são, necessariamente, as mais amadas — são as que sentem esse amor no dia a dia. Quem é infeliz, por outro lado, muitas vezes tem tanto amor à sua volta quanto qualquer outra pessoa. Só que não o sente.

Essa conversa deu origem a um livro em conjunto, How to Feel Loved, e o seu argumento central desafia uma das ideias mais entranhadas sobre o bem-estar: a felicidade não depende de quanto somos amados, mas de quanto conseguimos perceber esse amor.

Ser amado não basta: é preciso senti-lo

É possível estar rodeada de afeto genuíno — uma família presente, amigos leais, um parceiro dedicado — e, ainda assim, sentir-se sozinha ou incompreendida. É essa a contradição que Lyubomirsky resume numa frase simples: “Se não sente esse amor, é como se ele não existisse.” Por outras palavras, o bem-estar emocional não se mede pela realidade objetiva dos laços afetivos que temos, mas pela nossa capacidade de os perceber diariamente.

Os números ajudam a dar dimensão ao problema. Segundo o Ipsos Global Happiness Study, 64% dos adultos, a nível mundial, dizem-se felizes — o que deixa uma fatia considerável da população de fora desse ressentimento positivo, mesmo quando, objetivamente, não lhes falta quem as ame.

Sentir-se conhecido é a condição para se sentir amado

Para que o amor de alguém seja verdadeiramente sentido, é preciso primeiro sentir-se conhecido tal como se é — qualidades e defeitos incluídos. E é aqui que a vida moderna complica as coisas: nas redes sociais, a maioria mostra apenas a melhor versão de si, as conquistas, os momentos bons. Esse hábito alimenta uma dúvida persistente — seria eu ainda amada se as pessoas conhecessem as minhas falhas?

Duas pessoas sentadas frente a frente numa mesa de madeira, em conversa genuína, com expressão de escuta atenta e conexão emocional

A boa notícia é que esse sentimento de ligação não exige grandes gestos. Lyubomirsky dá como exemplo algo tão simples como uma carta de agradecimento a alguém próximo, ou um favor feito a um colega — pequenos atos que bastam para gerar uma sensação mais forte de proximidade afetiva. Aliás, a forma como hoje preferimos comunicar — muitas vezes por mensagem em vez de chamada — também faz parte desta equação: o que importa não é o canal, mas se a troca nos faz sentir genuinamente vistos pelo outro lado.

Quando a mente distorce o amor que já existe

Nem sempre a dificuldade em sentir amor é uma questão de perspetiva que se escolhe. Alguns estados psicológicos toldam mesmo essa perceção, independentemente de quanto afeto exista de facto à volta da pessoa. Segundo a psicoterapeuta Abbey Sangmeister, citada pela Verywell Mind, a depressão cria uma espécie de névoa que impede a pessoa de reconhecer com clareza o afeto dos que a rodeiam.

O psicólogo Glenn Geher, numa crónica publicada na Psychology Today, acrescenta que os piores momentos de uma vida coincidem, muitas vezes, com um sentimento de abandono — independentemente de os laços afetivos reais continuarem intactos. A perceção, mais do que o facto, é o que pesa.

Mudar de perspetiva, não de personalidade

Perante essa sensação de falta, o reflexo mais comum é tentar mudar — mudar de comportamento, de aparência, ou tentar mudar quem está do outro lado. Mas, segundo Lyubomirsky, numa entrevista à Greater Good Magazine, a solução costuma estar noutro lugar: não é a personalidade que precisa de ajuste, é o olhar.

Nada está necessariamente errado em quem se sente pouco amado. Muitas vezes, uma simples mudança de perspetiva basta para acolher melhor o amor que já está presente — e, com isso, sentir mais felicidade no quotidiano. Não se trata de procurar mais amor lá fora, mas de aprender a reconhecer o que, muitas vezes, já está mesmo à frente dos olhos.