Na maioria das casas existe pelo menos uma extensão ou multipresa. Serve para a lâmpada de cabeceira, o carregador do telemóvel, o secador de cabelo, o robot de cozinha ou o carregador do portátil. Parece um objeto inofensivo, quase invisível no dia a dia. Mas os bombeiros continuam a repetir o mesmo aviso: a forma como muita gente usa estes aparelhos continua a ser perigosa.
Uma utilização incorrecta não é um detalhe de menor importância. Os riscos vão do sobreaquecimento dos cabos até ao incêndio doméstico. E os números mostram que o problema está longe de ser residual.
Segundo o barómetro de 2024 do Observatório Nacional de Segurança Elétrica (ONSE), referentes a 2021, foram declarados junto das seguradoras 286 mil danos elétricos. No mesmo período registaram-se 156 mil sinistros de incêndio em habitações, dos quais entre 20% e 35% tinham origem elétrica. Uma das causas principais identificadas é a “sobreintensidade” — situações em que demasiados equipamentos ficam ligados a extensões ou multipresas.
O padrão é sempre o mesmo: pequenas falhas de atenção que, somadas, criam condições para o calor acumular e o plástico derreter. Os bombeiros conhecem bem estas situações. Aqui ficam os cinco erros que ainda se veem com demasiada frequência.
1. Ligar aparelhos de grande consumo ou aquecedores à multipresa
Radiadores elétricos, fornos, micro-ondas de alta potência, máquinas de lavar ou secadores de cabelo potentes não devem ser ligados a uma extensão comum. Os bombeiros de Ille-et-Vilaine, num folheto de prevenção de incêndios domésticos, alertam precisamente para este gesto: não se deve sobrecarregar a multipresa “para evitar o risco de incêndio por aquecimento”.
Há casos documentados que mostram o perigo concreto. O site americano Firefighter Nation relatou um incêndio em Harlem em que os bombeiros salvaram uma família de sete pessoas. A causa apontada foi um aquecedor de apoio ligado a uma extensão e a uma multipresa. O cabo e a ficha não estavam dimensionados para a carga contínua de um aparelho que consome muita energia.
A regra prática é simples: aparelhos que aquecem ou que têm motores potentes devem ir diretamente à tomada de parede, nunca a uma extensão partilhada com outros equipamentos.
2. Esconder a multipresa debaixo de tapetes, móveis ou cortinas
Muita gente esconde a extensão para “arranjar a divisão”. Coloca-a atrás do sofá, debaixo do tapete ou por trás de uma cortina. O problema é físico: o calor gerado pelos cabos e pelas fichas deixa de se dissipar. O plástico aquece, o isolamento degrada-se e o risco de incêndio sobe.
Em janeiro de 2026, um apartamento no centro de Caen ficou completamente destruído. As autoridades apontaram como origem provável uma multipresa colocada atrás de um sofá. O fogo alastrou rapidamente. Este tipo de incidente não é isolado — os bombeiros veem com regularidade extensões escondidas em locais sem ventilação.
A solução é deixar a multipresa sempre à vista, num local arejado, longe de tecidos e de materiais combustíveis. Cuidados semelhantes aplicam-se a outras situações de risco em casa, como deixar resíduos inflamáveis no jardim.
3. Ignorar a potência máxima indicada na própria extensão
Quase todas as multipresas trazem impressa a potência máxima que suportam. Numa extensão básica esse valor costuma rondar os 1 800 W. Quando se ultrapassa esse limite, os fios aquecem. Se a sobrecarga se mantém, o isolamento pode derreter e o curto-circuito ou o incêndio tornam-se possíveis.
O erro mais comum é somar vários aparelhos sem fazer a conta. Um secador de 1 800 W sozinho já esgota a capacidade de muitas extensões. Acrescentar um carregador, uma lâmpada e um ventilador pode parecer pouco, mas o conjunto ultrapassa facilmente o limite.
Antes de ligar qualquer coisa, vale a pena olhar para a etiqueta e somar o consumo dos aparelhos que se pretende usar ao mesmo tempo.
4. Ligar multipresas em cascata (uma na outra)
É um hábito antigo e ainda muito visto: uma extensão ligada a outra, e por vezes a uma terceira. O resultado é que toda a carga acaba a passar por uma única tomada de parede. A probabilidade de sobrecarga e de curto-circuito aumenta de forma significativa.
Os bombeiros pedem explicitamente que se evitem “as tripletes ou multipresas sem cabo de ligação ligadas umas às outras”. Cada nível adicional multiplica o risco e dificulta a dissipação de calor.
Se forem precisas mais tomadas, a solução correta é instalar uma nova tomada de parede ou usar uma única multipresa de qualidade, com proteção adequada, e não empilhar extensões.
5. Continuar a usar uma multipresa danificada
Cabos esfiapados, fichas rachadas, plástico derretido ou marcas de queimadura são sinais claros de que a extensão chegou ao fim da vida útil. As partes danificadas podem deixar fios expostos e provocar choques elétricos ou faíscas.
Muita gente adia a substituição porque “ainda funciona”. O problema é que o funcionamento aparente não garante segurança. Um cabo com o isolamento comprometido pode aquecer de forma invisível até o momento em que o fogo começa.
A recomendação dos bombeiros é direta: assim que a multipresa apresentar qualquer dano, deve ser substituída. Não se repara com fita isoladora nem se continua a usar “só mais um pouco”.
O que fazer para reduzir o risco
Além de evitar os cinco erros acima, há alguns hábitos simples que fazem diferença:
- Verificar sempre a potência máxima da extensão e o consumo dos aparelhos.
- Preferir multipresas com proteção contra sobretensões.
- Desligar a extensão quando não está a ser usada, especialmente à noite.
- Escolher modelos com interruptor geral, que permitem cortar a corrente a todos os aparelhos de uma só vez.
- Substituir de imediato qualquer extensão danificada.
Estes gestos não eliminam todos os riscos elétricos da casa, mas reduzem de forma significativa as situações que os bombeiros mais associam a incêndios de origem elétrica. A multipresa é útil. Usada sem cuidado, continua a ser uma das causas evitáveis de acidentes domésticos graves. Manter a casa segura passa também por outros cuidados quotidianos, desde a manutenção do terreno até pequenos hábitos que afastam pragas.





